Eutanásia

(Leia ouvindo a playlist aqui)

Sempre achei muito cômodo da parte de alguns músicos e poetas a ideia de morrer por amor. Culpo Shakespeare por ter dado aquele final imbecil ao Romeu e à Julieta. Treze anos de idade, uma vida inteira pela frente, várias outras oportunidades de sofrimento e drama desperdiçadas com veneno. Não, Shakespeare. Morrer por amor é enfadonho e desnecessário, além de ser meio cômodo poder optar por uma morte quase instantânea e indolor. Trocaria de lugar com esses amantes adolescentes num piscar de olhos se adiantasse de algo. Imagino que tomar veneno e cair morta é bem mais fácil que viver o bastante para ver o objeto do seu afeto adoecer e definhar sem poder fazer nada. Morrer por amor só prova que se é egoísta o bastante para querer ir na frente, sem o mínimo de consideração por quem fica. É coisa pequena e rude para quem está onde estou.

Aliás, onde estou? Sei lá! Tenho apenas uma vaga noção de como vim parar aqui.

No começo, eu e você tínhamos algo. Começou com a curiosidade, passou pelo assombro, o medo e, aos poucos, a afeição. Você me deixou entrar na sua vida e eu tentei ser esperta o bastante para não estragar tudo. Ainda tento não fazer nada de errado, mas cada vez é mais difícil. Você confiou em mim e, num determinado momento, resolveu me amar. Eu, que já te amava bem antes disso, aproveitei tudo quanto pude.

Logo éramos quase uma coisa só. Dormir, acordar, tomar café, trabalhar, sorrir, chorar e até ir ao banheiro, nunca era só eu, nem mesmo quando estávamos distantes. Nossos pequenos rituais preenchiam minha vida até mesmo na falta que fizeram quando fui para outro país. A intensidade do nosso vínculo ficara nítida na saudade da rotina e no misto de alegria e ressentimento do reencontro. Somos almas gêmeas na tranquilidade e na birra, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… Maldita doença!

O fim começou antes do esperado. Uma incontinência suspeita. Dieta restrita. Exames periódicos. Nada grave. Depois uma pupila estranha. Brinquei com o fato de ser do mesmo lado em que meu olho quase não enxerga. Olhos gêmeos como as almas. Novos exames. No fim, as centenas de gramas perdidos não eram culpa da dieta. Remédios. Mais perda de peso. Desencana de dieta, nunca devíamos ter entrado nessa. Ultrassom, exame de sangue, consulta, estimulante de apetite. Nada. Troca tudo. Ainda menos peso e quase nada de apetite. Volta tudo. Ainda nada. Mais exame. Câncer, da pior espécie. Anos abreviados para meses ou semanas. Uma opção pior que a outra, todas com o mesmo final.

Tratar e morrer meses depois? Operar e morrer na cirurgia? Ou não fazer nada e morrer sem ser espetado, aberto e revirado em vão? Talvez essa última, já que a morte é certa. Se ela vem para quem é saudável e se empenha em evitá-la, não haveria de ser diferente para um gato com câncer de pâncreas provavelmente em metástase. É, estou falando de um gato. Meu gato. Minha alma gêmea felina, cujo destino depende de escolhas que ele não pode fazer e que, por conseguinte, sobraram para mim.

Isso torna ainda mais absurda a ideia de morrer por amor. Porque alguém precisa cuidar dele. Alguém deve estar vivo o bastante para saber o que fazer. E, infelizmente, ainda sou a melhor candidata para a função, mesmo nesse estado deplorável e acometida por uma vontade violenta de me esconder em uma caverna enquanto torço pelo fim do mundo. Assim, no lugar de bancar a seguidora do Jim Jones ou fugir para as colinas, me resta engolir o choro, recolher meus trapos e tentar dar mais esses 20 mL de comida pela sonda enquanto tento medir o grau de desconforto existencial do meu fiapinho felino, essa coisinha frágil e leve, quase metade do que foi um dia.

Para ele, morrer é fácil. Incômodo e cansativo, talvez, mas no fundo a única tarefa é esperar. Viver é que custa. Custa uma energia que ele já não tem e que não sei como prover. Um milagre que não existe. A força para tentar continuar, mesmo quando suas células se rebelam contra seu corpo. Mesmo quando se perde um novo território a cada dia. Viver, no meu caso, custa a dor de escolher entre assassinar o sofrimento dele ou torturá-lo para adiar o meu. É saber quando desistir de parte da própria alma e ter a noção de que não será a última vez. Porque hoje é meu gato, mas um dia todos os meus outros amores também irão partir. Viver dói pra caralho às vezes.

Então quero trucidar quem diz que morreria por amor. Morrer não é optativo, heróico e muito menos romântico. O que se pode fazer por amor é viver, ficar junto, cultivar os bons momentos, segurar o tranco dos ruins e, quando a hora chega, aguentar o pânico de deixar partir. O amor é para sobreviventes, mesmo aqueles que habitam apenas o reino das memórias.

Assim, enquanto escrevo com Sina no colo, sei que seremos eternos.*

* Texto escrito em 27 de maio de 2017. Três dias depois, tudo virou saudades.

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19 comentários sobre “Eutanásia

  1. Estou emocionada. Li acariciando um dos meu gatos (minha alma gêmea felina) enquanto minha cachorra me observava ciumenta. Dia 17 desse mês faz 5 anos que perdi meu pai. Aos poucos o aperto no peito vai diminuindo …Sei que é clichê, mas o tempo é o melhor remédio. No fim o que nos sobra são as boas lembranças, por isso devemos colecionar um monte delas. Muita força para você. Texto lindo e verdadeiro. Viva a vida!

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    • Obrigada, Cynthia! Tento mesmo lembrar que uma hora fica tolerável. E agora tento lembrar de colecionar outras lembranças com os que ficam. Tudo é tão imprevisível e passa tão rápido que a gente nunca pode perder isso de vista, né?
      Bjos

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  2. passei um ano, acordando 2 a 3 vezes durante a noite, para dar remédio e para alimenta-la, deixei de fazer viagens bate e volta e as de mais dias já não faziam há anos, para não deixa-la sozinha, comprava o q de melhor havia para ela, não miguelava remédios caros, mesmo que as vezes ficava com a grana curta, foram quase 20 anos de companhia, faltavam 2 meses ….. mas na última semana foi daquela que vc sabe que é preciso fazer…..minha gigi; faz 6 meses e ainda canto musiquinhas com rimas de gigi pudim, ainda converso com ela com aquelas vozes engraçadas….ficou só o imenso amor e amizade que jamas esquecerei!

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    • No fim a gente sabe quando não dá mais, né? Ainda dói pra cacete, mas a gente sabe. E o amor fica e tem hora que parece até que ele se espalha. Dói porque valeu a pena casa segundo! ❤

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  3. Há 3 anos eu passei por isso. Era minha alma felina e dou até hoje. Porquê não sei se fiz o certo, os rins não funcionavam mais e ele nem andava mais. Amar foi muito mesmo. Força.

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    • Acho de verdade que não tem escolha certa nesses casos. Só o que a gente pode fazer é tentar lidar com a mesma dignidade que gostaríamos de ser tratados. O importante é que, independente de tudo, o sofrimento deles (que devia ser pior que o nosso) finalmente passou. E eu também gosto de imaginar que, se existe um céu felino, o Sina deve estar compensando por todo o tempo que ficou sem comer…

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  4. Entendo sua dor pois também por isso.
    Meu Borba amado se foi em 07/04 após 10 meses de tratamento por causa de um linfoma na medula.
    Quem nunca teve um amor assim na vida, não sabe do que falamos.

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  5. Estou passando por isso, terça feira numa consulta de rotina descobri um nódulo na mina, fiz o exames é a metástase já pegou todo seu pulmão. Me sinto incapaz de tudo, Estou vivendo os piores dias da minha vida, a cada suspiro dela uma crise. É exatamente isso, como minha alma gêmea vai me deixar, como será acordar? Dormir? Chegar em casa? Ir ao banheiro? Estou devastada por dentro, e nunca senti algo tão ruim.

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    • Sei exatamente como você se sente. Estive nesse lugar até semana passada e ainda é difícil fazer algumas tarefas banais sem ficar triste. Mas acredito de verdade que meu Sina sempre vai estar comigo e eu só preciso me ajustar à ausência física. E sei que sua Mina também vai ser sempre parte sua. Dói tomar decisões nessa hora, até decisões bestas como sair ou não de casa pra fazer qualquer coisa. Aproveita o tempo que resta e presta atenção no que ela sente. Apesar deles não falarem, eles sempre dão aquele jeitinho de se comunicar com a gente. O que importa é tentar honrar esse vínculo da melhor forma possível. Espero mesmo que vocês encontrem conforto nessa hora. ❤

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  6. Existe um céu para os bichinhos! Tive a certeza disso qdo perdi minha amada cachorrinha, aquela que me ensinou a ser mãe. Diferente do seu gato, foi dormir e não acordou. Melhor assim.

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  7. Lindo texto. Fiquei muito emocionada porque sei do amor e da dor que é. Por coincidência, minha alma gêmea felina também se chama Sina…De Sinatra. É um privilégio viver uma história com eles. Força sempre, Ju! ❤️

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    • O Sina também era Sinatra, Sinatrinha, Sinatrildo… Foi mesmo uma honra a gente ter se encontrado nessa vida. Aperte bastante o seu Sina por mim! ❤

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  8. Força, conheço o dilema de tentar todo e qualquer meio de manter eles fisicamente junto de nós ou permitir que ganhem asas, dói para carai. Cada pessoa tem um pensamento e o meu é que não podemos manter o sofrimento deles para atenuar o nosso é preciso um limite. Você conhece o texto da ponte além do arco íris? É nele que me apego, um dia a gente volta a se encontrar. Abraços.

    Curtido por 2 pessoas

    • Oi Maria! Pois é, hoje penso como você. A gente tem que saber a hora de sofrer no lugar deles, né? Vou procurar esse texto e sei que, mesmo sem eu ver, o Sina sempre vai estar comigo ❤

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  9. Pingback: Vida nova | Coletivo Visceralistas

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