O amor é azulzinho

Meu pai e eu batíamos recordes. A primeira vez foi em meu aniversário de 10 anos, quando ele sugeriu ver quem conseguia comer a maior quantidade de brigadeiros dos que minha mãe esqueceu na geladeira e não serviu. Mamãe esquece tudo, menos das coisas importantes. Fez questão de lembrar papai que eu poderia ter dor de barriga se comesse toda aquela bandeja, mas implorei sua permissão ao mesmo tempo em que ele enfiou três brigadeiros boca adentro. Com olhos nos olhos e entre risos marrons, lambuzamos a cara e as mãos. Meu pai se estufou com doze brigadeiros. Eu comi treze e vomitei.

Como aquela ideia absurda havia sido dele, foi quem teve que me dar banho e colocar para dormir.

Sempre gostei de dormir no peito do meu pai. Ele não era de contar histórias nem nada, na verdade a gente não costumava conversar, mas tanto ele cochilava enrolando o dedo nos meus cachinhos, quanto eu adormecia emaranhando os pelos espaçados de sua barba.

Não tínhamos muita coisa em comum, então meu pai deu um jeito nisso criando o desafio dos recordes. E ele tinha tanto cuidado em alimentar nossa intimidade através dos desafios, que na maioria das vezes estes giravam em torno de comida, porque pelo menos três vezes ao dia tínhamos esse pretexto.

Mesmo estando juntos no café, almoço e jantar durante a semana, nas tardes e noites dos sábados, e nos domingos inteiros, eu tinha muita saudade do meu pai. Nunca contei isso a ninguém, porque eu mesma sei que não faz sentido uma pessoa ter saudade de alguém que se olha todo santo dia.

Ao passar do tempo, concluí que papai me deixava ganhar os recordes, porque a cada duas perdas minhas, uma vitória era dele. Depois a cada três vitórias suas duas eram minhas. Logo uma dele, três minhas, duas dele e então quatro minhas, o que me colocava em primeiro lugar nos cálculos gerais.

Há três anos que eu espero meu pai lançar um novo jogo, uma forma completamente nova para nos fazer íntimos outra vez, mas os oficiais de justiça nos vigiam. Por isso meu pai não consegue. E não podemos nos tocar, a juíza determinou.

Nosso último desafio foi ver quem passava mais tempo debaixo d’água. Eu tinha 15 anos.

Dando meu quase máximo fiquei um minuto e meio, papai marcou. Era sua vez de ganhar, então eu não podia ficar muito mais que isso. Tudo era azulzinho naquela tarde. Os filetes de sol na sombra do ladrilho; a fita do Bonfim que quase arranquei de seu braço quando o puxei da piscina; a toalha de banho, que pus em baixo de sua cabeça; e até os olhos do meu pai, que me desesperei por vê-los a qualquer custo. Cruzei as mãos contra seu peito apertando e soltando como pude, e nada. Joguei todo o peso do meu corpo em sua barriga, mas ele não expeliu uma gota, nada. Meu Deus, nada. Soprei sua boca. Meu Deus, pai, por que fiquei tanto tempo? Tapei seu nariz, peguei todo o ar do mundo e soprei com força. Com a língua para fora, ele tossiu de olhos fechados, soltou a cabeça na toalha e eu deitei seu pescoço em minhas mãos. Meus cachos fizeram carinho em seu rosto. A barba molhada dele fez cócegas na minha boca, então o beijei. Nos beijamos. Não sei quanto tempo durou, mas pode ter sido um recorde.

Há três anos não batemos mais recordes. E sem eles não resta nada para a nossa intimidade. Meu pai não é muito criativo. Isso puxei dele. Tratei de encontrar alguma coisa que pudesse ocupar o lugar desse nosso jogo, mas não consegui. Nunca coincidiu de o Fogão disputar um campeonato antes do nosso encontro. Mês retrasado encontrei a velha carteirinha da locadora que éramos sócios, com datas e títulos dos filmes que vimos domingo sim domingo não, intercalando com as noites de sanduíches estranhos, onde mamãe experimentava receitas. Éramos felizes.

Mês passado comentei com meu pai da carteirinha, mas foi só isso que me lembrei de falar. Passei os últimos finais de semana vendo filmes no quarto de portas trancadas, porque mamãe sempre se esquece de bater antes de entrar. Meu pai gostava de filmes de ação. Ainda gosta, eu acho.

Os olhos vigilantes dos oficiais me perseguem. Até no intervalo de vinte e nove ou trinta dias que passo sem que eles me vejam, me perseguem. É um inferno.

A barba do meu pai agora tem uns fios brancos. Há dias, como esse, que tudo fica azulzinho. O céu tem a cor exata de seus olhos e do esmalte que estou usando. Consigo comparar os tons se ajeito sua sobrancelha. A camisa branca do oficial ficou transparente por um instante. Voltou a cor. Um inferno, eu não me importo. O abraço do meu pai deixa em mim um cheiro tão confortável de brigadeiro e vômito.

 

Baseado no conto “O Livro dos Recordes” da coletânea “Enquanto nossos meninos dormem” de Renato Lemos, publicado pela Editora Oito e Meio, em 2015.

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