A cigarra e a formiga (versão 2.0)

Era uma vez uma formiguinha que cantava. Dentre tantas formigas que trabalhavam sem parar, essa trabalhava e trabalhava, mas cantava. As formigas detestavam  a cigarra que cantava ao invés de trabalhar, mas detestavam mais ainda a formiguinha que cantava no trabalho.

Para piorar, cada dia era uma cantiga diferente. O repertório dela era bem variado – Gil, Caetano, Gonzaga, Criolo, Ney, Zeca, Betânia, Marisa, Céu. Às vezes atacava de internacionais – Beatles, Zaz, Elvis, Sinatra, Strokes. Cantarolava e trabalhava.

As outras formigas falavam pelas costas: Aquela bunduda começou o porre, comentava uma. Aff, que voz mais desacertada, reclamava outra. Que música esquisita é essa, questionava uma ainda. Alguém manda essa sem noção trabalhar em outra área, protestava outra mais.

Às vezes a formiguinha ouvia um comentário ou outro, às vezes cantava mais baixinho para não incomodar, mas nunca deixou de cantar. Quando ficava de saco cheio de tanto falatório em suas costas, atacava de Raul. Mas quando distanciava na fila, vinha um saborzinho de melancolia na boca e assobiava Moon River.

Um dia as formigas juntaram-se para discutir, ou fofocar, sobre a formiguinha: É uma idiota, como cantar enquanto trabalha, trabalho é trabalho, música é outra coisa, onde já se viu cantar enquanto trabalha, não se concentra, não produz o que deve, não produz com qualidade, falavam ao mesmo tempo todas as formigas.

O pior é que nem era assim; e o pior dos piores, as outras formigas sabiam disso. Fazia o que tinha que ser feito e bem feito, só que cantando. Daí a formiga mais zangada chamou as outras para bolar um plano: Vamos valorizar a cantoria da cigarra, falou, encher a barrigona dela de muita comida e deixá-la imóvel de tanta farra; ela canta e a gente se diverte um pouco e a voz dela sufoca a voz da formiguinha que canta. Ótima ideia, vibraram, vamos trabalhar em paz, finalmente.

E foi assim, no inverno, quando todas as formigas se recolheram, a cigarra pegou seu violão, entrou na casa das formigas a convite e cantou sem parar, música que todo mundo sabia a letra. E as bundinhas das formigas iam de um lado para o outro, e as cabecinhas balançavam sem parar, e as patinhas sacudindo as folhinhas, e as boquinhas comendo e comendo.

A cigarra já estava bem gordona quando acabou o inverno, feliz da vida, se achando a melhor amiga das formigas. Mas elas não ligavam mais, iam trabalhar: Me esquece, cigarra, vai procurar sua turma. E a cigarra foi chateada para cima da árvore, tentando estourar de tanto cantar para atrair seu público novamente.

E eis que a formiguinha que cantava, de tão muda que ficou durante todo o inverno, perdeu a voz. As formigas ficaram confortáveis, trabalhando em seu silêncio de canção e só falando sobre produção e coisas importantes. Uma ou outra sentia falta da cantoria da formiguinha, mas sufocava para não criar problema e viver em harmonia.

O que elas não imaginavam é que a formiguinha continuava cantando, só que por dentro. E um belo dia, de tanto cantar, as asas apontaram e ela se transformou numa formiga alada. Deu tchau para o formigueiro e foi viver com as borboletas, os passarinhos, as abelhas, fez amizade com a cigarra, está tomando aulas de violão e ensinando músicas do Chico para a nova amiga.

Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

Moral da história: La Fontaine não gostava de música.

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3 comentários sobre “A cigarra e a formiga (versão 2.0)

  1. Que “releitura” criativa e que lindo final. Vou ler para minhas filhas ; )
    Agora, essa formiga tão animada só pode ser baiana, né?

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  2. A depender de como você encara a “opressão” alheia, você pode tomar um rumo surpreendente em sua vida! Linda estorinha! ❤️

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