Em família

Angélica bem sabia: já deveria estar dormindo. Mas a carência e a curiosidade a deixaram em um grau de excitação que impediam a mansa chegada do sono. A menina achava-se mais elétrica pela presença do tio Franco, o visitante vindo de longe e que sempre lhe dava atenção, presentes e abraços apertados.

Ela percebe alguma luz da casa se apagar e deduz ter sido a da cozinha, pois foi de lá que a expulsaram quando o relógio da parede revelou ser quase dez da noite. Não adiantou pedir para ficar só mais um pouquinho: a mãe foi chata, já havia passado e muito da hora de criança ir para a cama. Como último recurso, a menina se agarrou com força à cópia sem barba de seu pai. Tio Franco tirou-a delicadamente de sobre a sua perna e a colocou no chão: se Angélica obedecesse à mamãe, amanhã depois do almoço ele a levaria para tomar sorvete. A alegria fez estremecer o seu corpinho por um instante, mas a raiva ressurgiu ao perceber que aquela mulher ficara sozinha com o papai e o titio; imediatamente apareceu em sua cabecinha a imagem difusa da mãe deitada no colo dos dois homens no sofá e teve certeza de que era aquilo que estava acontecendo às suas costas.

A menina engoliu algum sentimento que desejava sair do seu corpo em forma de lágrimas. O importante era dar jeito de aguentar acordada até o tio deitar na cama grande, pertinho da sua. Lá estava Angélica, deitada na caminha de princesa, ansiosa e agitada, planejando cuidadosamente o que fazer. Assim que o tio chegasse, se jogaria nos braços compridos e fortes dele, ou seria melhor esperá-lo roncar para fazer-lhe milhões de cócegas nos pés?

Os passos se aproximam lentamente. Ela vira-se de lado, em direção à cama grande – era necessário fingir melhor que está mimindo, porque ninguém dorme de barriga para cima. Escutou as três vozes se darem boa noite. Finalmente o tio seria só dela.

Ele entra, começa a fechar a porta. O coração de Angélica dá uns pulinhos. Ela torce para que ele tranque a porta, igual acontece às vezes no meio da noite com a porta do quarto dos seus pais, mas o tio Franco se detém no meio do caminho, deixando-a entreaberta. O lado de Angélica no quarto ficou todo preto, mas ela sabia, se mantivesse os olhos olhando, o escuro, aos pouquinhos, ficaria menos escuro. E por sorte a cama grande havia ficado bem direitinho na parte onde entra um pouco da claridade da rua, então ainda assim ela conseguiria cuidar do sono dele.

Mas tio Franco foi logo mexer na mala, do outro lado do quarto. Estava longe demais para a menina dar um salto e alcançá-lo. Seria melhor esperar mais um pouco. Ele tira a camisa e Angélica fecha os olhos rapidamente – sabia que era errado assistir os outros trocarem de roupa, mas a curiosidade é igual coceira e Angélica precisou morder os lábios para se controlar. Ao ouvir passos, abriu os olhos novamente e enxergou o tio vindo em sua direção.  Sentiu o coraçãozinho bater no peito e no pescoço ao mesmo tempo; desejava muito ser abraçada por ele, queria ser pega no colo e receber dele algo que nem sabe o que é. A menina volta a fechar os olhos, certa de que a qualquer momento será tocada, mas o tio faz a cama grande ranger ao se esparramar sobre o colchão.

Sentindo-se rejeitada, Angélica age por instinto: sai da sua caminha e sobe na cama do tio; aconchega-se ao seu lado, protegida pela concha formada pelo corpo do homem grande, agarra-se a um dos brações como se abraçasse um ursinho de pelúcia e se faz envolvida por aquela massa roliça e rígida. Agora ela sente-se calma e feliz, possuída e possuidora de um afeto imemorial.

O tio se enche de carinho; gosta dessas demonstrações de afeto da pequena. Se um dia eu inventar de ser pai, tem que ser de uma menina, ele pensa, ainda encantado com a cena na qual se viu envolvido.

Porém, do nada, sente um princípio de ereção.

Aterrorizado, Franco afasta o seu corpo do corpo da menina que, ainda acordada, persegue-o sob o edredom. O homem chacoalha a cabeça, tentando entender de onde surgiu aquela reação espontânea e nojenta. Atração por criança é coisa de doente, porra!, macho é tudo pervertido, que merda. Consciente de que a responsabilidade de conduzir a situação pelo caminho correto é toda sua, manteve-se junto à sobrinha, cuidando para não encostar em nenhuma parte delicada daquele corpinho infantil e inicia uma vigília dupla: cuidar da menina e vigiar para não ser surpreendido pelas próprias ideias. Percebeu-se invadido por uma memória de quando tinha mais ou menos a idade da sobrinha: independente de ser a mãe ou o pai lhe dando banho, ele tinha ereções, que definia, repetida e orgulhosamente, com a seguinte sentença: O meu tico está brabo. Teve vontade de rir, mas deixou sair apenas um sorriso nostálgico e distraiu-se tentando não deixar escapar essa lembrança tão remota de uma época em que tudo era felicidade. Mirou de novo a sobrinha, iluminada por uma claridade que parecia o brilho próprio da inocência e sentiu a alma da criança resgatar a sua infantilidade.

Angélica queria a companhia do homem que o tio é; e ele talvez quisesse lhe dar a companhia do menino que foi.

Ao perceber que a sobrinha finalmente dormira, o tio a pega no colo,  devolve-lhe à sua caminha e volta para a camona onde, orgulhoso de sua postura, consegue descansar sossegado.

Já a menina ainda naquela noite sonharia que carrega o seu próprio filho nos braços, um bebê tão pequeninho que cabe aconchegado em um seio ainda inexistente. Imersa em imagens oníricas, ela delicia-se com uma fantasia que vai lhe acompanhar a vida inteira, mas jamais se lembrará desse sonho.

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