Morto fraco

Amanhecem estirados na calçada após uma longa noite.  A rua deserta e fria, o chão duro como a vida. Ainda machucados por pular o muro do cemitério para descobrir que desta vez só havia na encruzilhada umas flores, duas bananas e um resto de pinga, nenhum docinho pra alegrar a vida. Às vezes os macumbeiros deixam até frango assado, mas não deram tanta sorte desta vez. Estavam de barriga vazia, cabeça tonta e dormiram um sono confuso, interrompido algumas vezes pelo barulho das ambulâncias e carros de polícia, que ecoavam no ar como vampiros sedentos prestes a atacá-los, provocando os mais sinistros arrepios.

Tião sonhava com um cavalo que corria rápido e era branquinho como a neve, no qual montava e galopava sem fim, atravessando a cidade, o estado e o país, numa sequência de paisagens silenciosas. Depois o cavalo criava asas e saia voando pelo espaço. Era um sonho bom, pena que sempre acaba.

Se o sol esperasse só mais um tantinho pra nascer, dava pra dormir mais, pensavam enquanto tiravam a preguiça do corpo em longas espreguiçadas que expunham os ossos das costelas. Logo haveria movimento no cemitério, se Deus quisesse, muitos mortos seríam enterrados naquele dia. Mortos cheios de amigos e amigos cheios de dinheiro e generosidade para com Tião e Tonho, guardadores de carro do cemitério da Forquilhinha já há dois anos.

Esse morto aí tá fraco hein, Tião, grita Tonho do outro lado da rua. Na capela, jaz um senhor acompanhado somente de sua viúva. Horas se passam e nada de chegar gente para aquele velório. Judiação, pensa Tonho. Chegam junto da viúva, tiram o boné em sinal de respeito, rezam um pai nosso mudo, enquanto estudam a figura magra do defunto. Na saída, Tonho comenta ter o morto cara de gente ruim mesmo, devia ser uma praga, você viu o tamanho da testa dele? e aquelas rugas no canto da boca?

Os grandes portões de ferro retorcido do cemitério finalmente abrem às sete da manhã  e logo aquele pobre morto é enviado ao além. Em breve sua carne será devorada pelas formigas e vermes, ao menos não estará sozinho, pensa Tião.

As oito chegam vendedoras de velas, comerciantes de flores de plástico e ambulantes vendendo água e a rua ganha vida. Passada a ressaca, Tião e Tonho, sentem como se a festa estivesse apenas começando.

Mas a festa não prossegue, depois daquele enterro não houve outro e os dois tinham só o suficiente para uma garrafa de cinquenta e um, a qual compraram e beberam em goles grandes, porque ela devia servir de comida, bebida e cobertor.

A noite caiu, e junto com ela, aquelas duas almas. Dormiram no ponto de ônibus, enquanto um vigiava, o outro descansava, num revezamento, ao menos este era o combinado.

Tião era o vigia da vez, e olhava fixamente para as janelas iluminadas da igreja, viajando no colorido dos vitrais. Tonho roncava a seu lado, no banco de concreto, a boca aberta que deixava sair um hálito etílico misturado com o cheiro de boca sem lavar.

Ouve o barulho de um cavalo trotando, volta os olhos em direção ao som, para ver surgir de dentro da neblina o cavalo do sonho da noite anterior e sobre ele, o defunto com cara de ruim.

O cavaleiro se aproxima dos dois, Tião tenta acordar Tonho, que parece ter morrido de vez. O diabo desce do cavalo num salto, ele parece bem maior do que no caixão, se aproxima de Tião e pergunta se eles costumam beber e comer as macumbas do cemitério. Tião nega, enquanto se afasta do defunto vivo. Me enviaram aqui pra levar vocês embora, porque ficam atrapalhando o almoço dos espíritos, fala o morto com sua voz espectral.  Ouvi quando você disse que eu devia ser uma praga, saiba que você errou, sou bem pior que isso, e soltou uma risada maquiavélica.

Então o defunto puxou Tião e o amarrou ao cavalo, com a bunda para cima. Este   gritava por socorro, jurando que nunca mais iria roubar cachaça das oferendas, nem comer nada, nem uma balinha. O cavaleiro partiu galopando, ignorando os gritos e pedidos de clemência de Tião. Entrou na cova do cemitério, onde milhões de bichos os esperavam com os olhos acesos de fome. Tião sentia cada mordida daqueles vermes, que eram também muito maiores do que ele imaginava, e coloridos. Quando uma formiga resolveu entrar pelos olhos desesperados dele, começou a bater na própria face para espantar o inimigo.

Nesta hora percebeu que não estava na cova, mas sentado no ponto de ônibus. Tonho ainda roncava a seu lado, agora de barriga pra cima. A igreja já iluminada pelo sol, que surgia como uma bola de fogo por detrás dos muros do cemitério. Sentindo o gosto de cabo de guarda chuva na boca, suspirou aliviado, logo a festa recomeçaria e quem sabe conseguiria dinheiro para comprar seu cavalo.

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