Poente

O nome às vezes esquecia, apesar disso, toda noite a memória falha me pedia para trancar a porta com duas voltas. Quando cheguei, parecia um passarinho, nem falava, encolhida na cama. Depois de uns dias de atenção e cuidado, passou a me contar sua vida, sem cronologia. Primeiro falou que foi casada e que o marido morreu de fome. Disso desconfiei logo e perguntei se era verdade. Ela me falou que existem várias formas de morrer de fome, inclusive fome de dignidade. Disse que ela mesma vai morrer a qualquer momento. Duvido.

Contou-me que nasceu numa fazenda chamada Santa Clara, onde se plantava milho. Dizia que, na época da colheita, formava um campo verde, com muitas espigas parecidas com bonecas, e que amarrava fita colorida no cabelo das espigas, imaginando todo um milharal de bonecas só dela. Um dia veio uma chuva e molhou todas as fitas.

Gostava de ouvir suas histórias. Foi uma mulher bem educada, com leitura. Disse-me que trabalhou numa grande empresa quando todas as mulheres de sua geração não tinham opção além de se casarem, virarem donas de casa e parirem um filho após o outro, sem trégua. Citava as pessoas com quem trabalhou, muitas eu conheço como nome de rua. Novamente hesitei de sua sanidade, contudo, numa tarde, enquanto ela dormia, comecei a folhear um álbum antigo que ficava em cima da cômoda. Vi fotos amareladas de homens que pareciam importantes, ao lado deles uma mulher com postura altiva.  Pelo jeito, acho que todos são apenas lembranças, ou esquecimentos, melhor dizendo.

Vez ou outra canta com voz afinada uma canção antiga. Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito. Meu avô cantava essa cantiga para mim. Ele também me contava histórias de outros tempos, quando as pessoas se esforçavam pouco para serem completamente felizes. Meu avô me pedia que pegasse seus óculos, pois, segundo ele, seus olhos estavam ficando curtos. Dá saudade de meu avô quando a ouço cantar. Dá pena também.

É uma senhora turrona, me acusou de tê-la roubado um anel. Disso eu não gostei, até chorei. Relevo quando penso o tamanho do seu abandono. Não tem mais parentes próximos, gosta de contar histórias de quando sua casa vivia cheia. Fala do lugar como se nem vivesse mais nele.

Tem dificuldade de andar. Sua perna não está boa, tem diabetes. Tenho medo dessa doença, disse, vai matando a gente sem ruído. Às vezes a ajudo a caminhar um pouco entre os outros cômodos, mas empaca após poucos passos e me pede para parar, dizendo que quer voltar para casa, como se o corredor fosse em outro país. Coloquei uma mesinha e uma cadeira no quarto para suas refeições, contudo tem dias que nem levanta da cama, diz que o corpo dói, que precisa pentear o cabelo, que está esperando a visita de Deus.

Sabe que vou completar noventa e oito anos, perguntou-me emendando outro assunto, minha mãe usou um vestido azul no dia em que completou noventa e cinco. Lembrava-se com frequência da mãe, que, segundo ela, morreu com quase cem. Minha família tem vida longa, acordou um dia com essa reflexão, o tempo se esquece da gente.

Passamos o domingo de Páscoa sem visitas, só nós duas. Pedi para que cantasse a canção da felicidade, expliquei que recordava meu avô. Sorriu e disse que era música de velho mesmo, rimos juntas. Quando terminou a cantoria, virou-se para mim e constatou, com um riachinho saindo dos olhos, que a vida é uma eternidade sem fim. É pecado pedir para morrer, complementou, por isso rezo pedindo misericórdia.

Repetiu a frase de todas as noites: acho que de hoje não passo, melhor a gente se despedir. Entrelaçou meu pescoço com os braços fraquinhos, isso foi uma novidade, já que, normalmente, limitava-se a dizer-me um boa noite ranzinza. Enquanto a deitava, cochichou: Sei que não foi você quem roubou meu anel. Mais uma vez aquela história. Foi aquela outra, prosseguiu, a do cabelo curto, a que escreve histórias. Delírios senis. Pedi que não se preocupasse com essas coisas, que estaria ali quando ela acordasse, descanse. O corpo de passarinho relaxou, os olhos foram fechando bem lentamente. Apaguei a luz e fui sentar na poltrona perto da janela. Só ouvi um suspiro. Foi rápido.

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21 comentários sobre “Poente

    • Obrigada, Lucas! Escrever me faz um bem danado. E o seu livro é muito bacana. Você consegue nos transportar para histórias com cenário, personalidades e tempo usando um número mínimo de palavras. Técnica difícil, mas curti demais.
      Dê notícia dos próximos.
      Um abraço,
      Ariana

      Curtido por 1 pessoa

  1. Ari, como o moço aí de cima disse, triste, mas lindo! vários trechos me comoveram por sua sensibilidade. O tema da velhice, da senilidade e da fragilidade humana lindamente abordado! você é um talento! grande beijo Melissa Schaikoski

    Curtido por 2 pessoas

    • É só observar que veremos muitos poentes por perto. Basta cuidar e amar, por mais que pareça difícil, é felicidade também.

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  2. O conto é lindo, triste e poético. Tudo ao mesmo tempo. Tipo de texto que nos causa suspiros involuntários. Me lembrei do meu falecido pai… Adorei quando ela diz que a familia tem vida longa ” o tempo se esquece da gente”, muito bom.

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    • Valeu, Cynthia! Acho que a melancolia vai estar por perto, gosto dela. Espero que a lembrança de seu pai tenha sido doce.
      Um beijo,
      Ariana

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  3. Textos podem ser perigosos. Acabei de chegar a essa conclusão.
    Uma amiga muito querida um dia me disse que: “Os livros procuram seus leitores”. Como se nós – leitores -, não os escolhêssemos, e sim o contrário.
    Fico pensando sobre isso quando encontro no que leio, muito sobre mim. Ou, sobre o que precisava “ouvir”. O que precisava conversar com alguém. O que o livro me contou.

    Não sei se é correto afirmar que, quando escrevemos, escrevemos com alguma intenção prévia. Eu, pelo menos, não sigo por esse caminho. Sigo, meu coração.

    Seu texto me trouxe lembranças muito íntimas e pessoais. Talvez, só seja importante, ou tão mais importante; para quem já teve um “passarinho” na vida. Talvez, a história só faça conexão, com quem já vivenciou a história contada. São duas, três, infinitas histórias que são as mesmas. Mas que cada um tem a sua. Isso é lindo. Fascinante.

    Independente da sua intenção; obrigado por escrever sobre isso.

    Amor, Paz, Luz e Namastê.

    Brito Santos.

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    • Brito, sempre bom ler seus comentários. Bom também entender que há muita gente cuidando de “passarinhos”. Obrigada por isso.
      Um abraço,
      Ariana

      Curtido por 1 pessoa

  4. Ari, quanta sensibilidade ! Me deu aperto no coração durante a leitura. Melancolia, reflexão, serenidade, compaixão e amor na sua expressão. Terminei assim,…”Ohh..”

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