Ferida exposta

Eu bati no meu filho, bati diversas vezes, na bunda, nas pernas, no rosto, com ou sem razão. Se é que existe motivo para bater em filho, você vai dizer que não. Mesmo desconhecendo meus motivos, sei que tenho. Você não me conhece, mas me julga. Me olha torto, me ameaça, me condena. Enlouqueci? Perdi a razão? Você também já sentiu raiva de seu filho, teve vontade de dizer isso a ele. Existem várias camadas que separam a vontade da ação, e elas te protegem. Eu não tenho camadas, sou ferida exposta, fluxo contínuo, não tenho membrana. Minha pele esgarçou e deixou vazar o pior dos sentimentos, o ódio desmedido.

Vim de longe, de uma terra árida, infértil. Fui talhada para ser nada e a verdade nunca chegou a mim. Sou feita de impossibilidades e de alguns sentimentos. Eu tinha sonhos como você, estudar, me formar, dar o melhor de mim e ser doutora, frequentar o fórum com roupa bem cortada, cabelo preso e pasta na mão cheia de papéis. Eu ia te julgar, te defender, te acusar. Mas não fui nada disso. Engravidei. Só queria uma transa, ele também, mas quem pagou a conta fui eu.  Escondi a barriga por 5 meses, neguei ao meu filho uma parte de sua história e agora é ele que mente, e eu exijo violentamente que ele diga a verdade. A vergonha do prazer e o prazer da violência. Quem conseguirá me dizer como isso foi acontecer? Quem poderia ter impedido tamanha devastação?

Na última surra bati no rosto, nos braços, nas pernas, até que o galo cantou, e só aí eu parei. De baixo do capuz do casaco, com o rosto inchado, eu me vi nele, éramos iguais, então choramos juntos. E juntos andamos pela rua até o dia vingar. Era um domingo qualquer. Ele precisava de ajuda, era um menino grande, alto, maior do que eu, por que então não fugiu, não gritou? Não me bateu de volta? Por que, meu Deus? Não suporto todo esse amor, não consigo ser o lugar para onde ele quer voltar quando eu o mando embora. Precisei de ajuda, mas você me olhou com dúvidas, com desprezo, na porta do mercado, no ponto de ônibus, no portão da sua casa. Pedi o conselho tutelar, a polícia, o juiz, mas ele me implorou, me cercou de carinho, me fez um café, mentiu para si mesmo.

Devo querer algo dele, ele canta, dança, sabe desenhar, deve ter algo que eu deseje nele, mas, se eu não o quero, e eu nunca o quis, essa pergunta fica sem resposta. E você tem um projeto ambicioso para mim, quer me ensinar a gostar dele, despertar meu instinto materno. Quer achar razões para explicar a ausência de amor pelo menino. Desista, não é sobre falta de amor. Simplesmente não suporto sua existência para além do meu domínio e controle. Não há espaço para a mínima diferença. Somos um duplo, e estamos emaranhados na ponta do abismo em busca das verdades que nos mentiram.  Essa é a radicalidade do amor, você não conhece porque  nunca ultrapassou a última camada. Então desista de mim, ajude o menino. Faça-o querer existir, querer viver para além de mim. Quem sabe um dia ele consegue dizer que eu não sou a mãe que ele queria ter? É sobre amor, é sobre ódio também. Você não entende. Nem eu.

Anúncios

4 comentários sobre “Ferida exposta

  1. É difícil ou impossível entender uma mãe ou um pai assim. Conheço vidas desestruturadas por isso. Sei o peso que os filhos carregam pela culpa de não se perceberem merecedores de amor e de sentirem ódio de quem os trouxe ao mundo e de si mesmos.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Dani, esse conto é intenso, forte.
    A voz que você criou para essa mãe é algo impressionante, muito real.
    Me lembro que me chocou a primeira vez que li (não sei se você mudou algo).
    Um tema tão delicado e ao mesmo tempo tão diferente de você. Um grande escritor tem essa capacidade. Bjo

    Curtido por 1 pessoa

  3. Dani, esse conto é intenso, forte.
    A voz que você criou para essa mãe é algo impressionante, muito real.
    Me lembro que me chocou a primeira vez que li (não sei se você mudou algo).
    Um tema tão delicado e ao mesmo tempo tão diferente de você. Um grande escritor tem essa capacidade. Bjo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s