A aparência branda do amor

Foi no tempo de Maria. A família chegou aos poucos na cidade. Primeiro o pai com a mudança, depois a mãe com os dois filhos mais novos, por último o filho mais velho que, colocando o pé na nova casa, pegou a bicicleta e foi explorar a rua. Na casa vizinha morava uma menina com os pais e justo ela estava no portão quando ele passou pedalando devagarzinho. Os dois observaram-se curiosos. Ela tem um cabelo esquisito, pensou ele, Ele tem um olho lá e outro cá, pensou ela. Sorte que a primeira impressão se desgasta com o tempo. Trocaram as primeiras palavras, oi-oi. No dia seguinte, depois no intervalo do colégio, conversaram um pouco sobre a aula de matemática, ¼ = 0,25. No terceiro dia cruzaram o olhar na cantina. Pronto, ela desvendou o ventinho na barriga: era ele aquele que esperou durante todos os seus longos quase onze anos de vida. Ele também desvendou algo: naquela menina habitava alguma coisa diferente, talvez ela gostasse de jogar futebol de botão, e seus olhos de dez e meio brilharam. Na verdade, o que aconteceu ali, naquele momento, foi que o mundo derreteu feito sorvete de creme.

Mas o amor não foi inventado para ser linear e, quatro dias após a chegada dos forasteiros, um surto de caxumba alastrou-se pela cidade. Estava na cara de toda gente e apontou atrás da orelha da menina. Maria, a sábia da casa, tratou de misturar barro de formigueiro com água morna e uma erva nascida no quintal, fez um emplastro e forrou com a argila desde o pé do pescoço até a raiz do cabelo da menina. Isso do lado direito primeiro, porque a consumição foi aos poucos. A menina, parecida então com parede mal rebocada, passou uns dias trancada no quarto, sonhando com o menino do olho divergente.

Mas eis que um dia alguém toca a campainha. Ninguém vai abrir, se interroga. Nem a Maria, pensa falando. Terei que ver quem é com essa cara, o pavor crescendo. Saiu na ponta dos pés, com medo de que seus passos fossem ouvidos através das paredes do quarto, da porta da sala, da varanda, do jardim. Espiou pela fresta da janela, apertando os olhinhos para ver melhor. Estava parado no portão, apeado da bicicleta, depois de tocar mais de cinco vezes, o garoto mais bonito da galáxia.

Ela congelou. Sentiu bater em seu peito um sonzinho assim: é-ele-é-ele-é-ele. Maria veio da cozinha, limpando a mão no pano. Quem tá aí, perguntava alto demais. A menina quase desmaia, quando ao mesmo tempo que escutava a voz da mulher via o garoto esticar o pescoço para dentro do portão. Xiiiii, fez baixinho para Maria que parou com a mão na cintura desafiando a careta de argila da menina. Preciso ver quem é, e se não te interessa, vá para o quarto, exclamou impaciente. A menina engatinhou para o refúgio.

Chegando no quarto, trancou a porta, deitou na cama e se embrulhou como um presente mal feito, esperando o toc-toc de Maria para lhe contar o resto da história. O coração não voltava ao compasso normal, é-ele-é-ele-é-ele. E assim ia seu pensamento quando Maria bateu na porta. O filho de Seo Uíliam deixou uma coisa para você e disse que te liga depois. Abriu a porta de supetão, não antes de atropelar o ursinho de pelúcia que dormia com ela até poucos dias. Cadê? Uai, menina, quer me matar do coração? Cadê, Maria, o que ele deixou? Toma e veja se deita que parece que a papeira está saindo de um lado e estragando o outro. Ela não ouviu essa parte do assunto, já estava hipnotizada pelo envelope amassado, escrito, com uma letrinha de pouca caligrafia, “Para: Julieta”. Rasgou com cuidado o envelope molhado ainda da cola e tirou de dentro o bilhete que dizia:

Oi, Ju!

Espero que melhore até o dia da festa de São Cristóvão.

A gente se ver lá.

Seu cabelo é bonito.

Ro

Hum, a gente se “ver”, acho que está errado, mas deixa quieto. Suspirou fundo, Ai de mim, com o bilhetinho apertado no peito, Ro-meu-Ro-meu, Três dias para eu sair dessa cama. Enquanto isso, Maria caçava casa de formiga no quintal.

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15 comentários sobre “A aparência branda do amor

    • Su! Crianças são universos, adoro! Difícil mesmo é chegar até a linguagem delas. Estou tentando.
      Beijos com saudades,
      Ariana

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  1. Oh delicia de conto! Voltei no tempo dos persongens…foi por aí. Aos 11 ou 12 anos senti pela primeira vez um lindo olhar no meu! Ah!!
    Obrigada,Ariana …bjs!

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  2. Pingback: Toda história tem seu fim | Coletivo Visceralistas

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