Delírio

telma e louisePor fim,  um belo dia de ócio para dirigir seu conversível vermelho esmalte de unha. Abriu as janelas do carro, aumentou o volume de born to be wild, sentindo-se  Telma ou Louise. Os cabelos alvoroçados feito línguas de fogo atiçadas pelo vento. As paisagens mais incríveis passam velozes pela lataria espelhada. Conduz o carro como faz com a vida, certeira como flecha rumo ao infinito,  não sabe onde vai parar, melhor assim, basta que puxe o freio de mão quando lhe for conveniente. “Só existe o agora”– repete seu mantra entre as mastigadelas no chiclete de menta. “Felicidade rima com liberdade”, bem que a professora do ginásio lhe disse uma vez que tinha o dom de fazer rimas, devia ter investido na carreira de compositora.

Por detrás do asfalto quente contempla o pôr do sol na baia de Guanabara, a mente rodando igual aos patins das meninas bronzeadas. As primeiras notas de Guantanamera  a situam na velha Havana de Fidel, onde jamais pisou e só ouviu falar pela televisão e que lhe encantou pelas cores. Cuba tem cheiro de banana e rum, aroma doce de fruta e salgado de mar, a repórter falou.  O chiclete de menta começa a perder o gosto quando Elvis-Presley surge sobrenatural sobre um palco cheio de luzes, rebolando When you put your arms around me, i get fever is so hard to bear, you give me fever”, mas quem precisa de chicletes com o rei lançando olhares de raio beta gama  sobre si? Joga o lixo pela janela esperando que o espaço o engula e ninguém a veja desrespeitando as boas condutas. Ele é um imã, ela uma mulher de metal. Tudo afinal vira fogo e gasolina. Nua e úmida, estava pronta para o amor.

Os movimentos de quadril de Elvis embaralham seus sentidos, geme com o impacto brusco que a faz tremer, o carro chacoalha com os solavancos causados pela lombada que passou despercebida. Os brinquedos das crianças caem no chão. Não teve tempo de se despedir, Elvis dá lugar ao ronco do Chevette 1980 reclamando de falta de gasolina.  Ao se dar conta da aliança desbotada no anelar da mão esquerda, sente uma fisgada de remorso. Devanear é pecar? 

No acostamento da vida, de volta à condição de mulher, mãe, esposa, percebe não ser nem Telma, nem Louise, mas apenas Maria que ainda precisa conseguir gasolina e passar no supermercado antes de pegar os filhos na escola. 

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17 comentários sobre “Delírio

  1. Parabéns pelo conto Mel! Fiquei pensando… será que ela está arrependida de algo que a sociedade impôs ou foi somente uma coisa de momento, uma lembrança de um de seus momentos felizes.

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