Passo a passo

O auditório estava lotado. No palco, os preparativos pareciam não ter fim. Na plateia, uma mãe apertava a bolsa contra o peito. Alguém tentava lembrar-lhe dos ensaios e de quanto seria imprescindível para o sucesso da apresentação sua confiança na capacidade da filha. Ela tinha apenas vontade de chorar. Era sempre assim. Deixou a bolsa de lado e agarrou a mão de uma amiga. Não havia um companheiro para dar as mãos desde que a caçula nascera. E a filha mais velha estava atrasada.

Paulinha observava o público dos bastidores. Viu a mãe e acenou alegre enquanto o professor repassava as orientações sobre o posicionamento dos utensílios na mesa. Começaremos em um minuto, disse o professor. Todos prontos. Como não conseguiram um lugar na frente, a mãe e sua amiga sentaram-se num canto do auditório. Enquanto olhavam para trás em busca da irmã de Paulinha que demorava a chegar, ouviram que era hora de começar. Luzes no palco. Dois jovens explicaram a dinâmica de apresentação. Paulinha seria responsável pela ordenação da mesa num restaurante fictício.

Da janela do foyer, um homem desconfiado espiava a vista. Com um toque no braço, despertaram-no do transe. Ele se deixou levar e entraram no auditório. Chegaram no momento em que Paulinha estendia com capricho a toalha sobre a mesa. Eu não acredito, reagiu a mulher com olhos bem abertos. O pai delas. Dela. Era a primeira vez que ele estava presente em uma das atividades da filha mais nova. O abandono lhe subiu à garganta. Enxugou uma lágrima. Vinte anos se passaram desde quando lhe entregaram no colo o bebê enrolado numa manta desbotada do hospital público, um franzino bebê com olhos puxados e orelhas gordinhas. Sua vida definida naquele instante. Poucos dias depois, o homem foi embora.

No palco, pratos posicionados, os talheres sendo um desafio na montagem. Cada movimento de Paulinha era acompanhado com atenção pelo público. Ela olhou para o professor que acenou positivamente com a cabeça. Estava tudo indo bem. Apoiou a bandeja na mão esquerda, como o professor havia ensinado, dispôs as duas taças e entrou no palco, mirando a mesa. Passos cuidadosos, a hora mais esperada por todos os que conheciam o protocolo. As taças deveriam ser postas à frente dos pratos, sem que ela apoiasse a bandeja e o equilíbrio era o segredo. Os colegas estavam com respiração suspensa. O professor, com braços para trás, girava uma mão na outra.

Duas décadas depois, e ali estava ele, tentando nova posição na cadeira de madeira do velho auditório. A mãe já havia se habituado à ausência do homem, Paulinha era sua missão. As mãos com uma prega demoraram para ter firmeza em segurar objetos e a língua não ficava dentro da boca. Atividades com nomes imprevistos foram entrando em sua rotina: estimulação neuromotora, aprendizagem mediada. Dia após dia tudo novo, nunca fácil. O tempo contado pelos avanços da filha. Paulinha no palco concentrada na mesa. Os talheres não estavam corretos. Como foi mesmo que o professor falou? Refez. Garfo principal à esquerda. Faca à direita, com fio voltado para o prato e a colher de sobremesa logo acima. Tem que ficar perfeito. Treinou muito na mesa de casa.

Era impressão ou o ar condicionado estava quebrado? Um auditório daquele tamanho, lotado de gente. O homem apanhou o lenço e limpou a testa suada. A mulher olhava de soslaio para  ele, que, por sua vez, reclinava-se para frente a fim de observar a moça no palco vestida de blusa branca, calça preta, sapato lustroso e cabelo preso num coque bem feito. Não era certeza, mas a cor do cabelo era igualzinha a dele. Paulinha continuava seu trabalho. Copo de água acima do cabo da colher de sobremesa, à direita. E o copo de vinho ao lado. Quase pronto. Faltava o pratinho de pão e a faca disposta sobre ele. Voltou-se para pegar os utensílios esquecidos na mesa de apoio.

O professor repetia baixinho as orientações que dera durante os ensaios, como se Paulinha pudesse escutá-lo. Ela precisaria de doze minutos para a montagem da mesa. Muito para uma apresentação, demais em um restaurante, o tempo certo para que todos entendessem que estava apta. Absorta no trabalho, não olhava para os lados. Um vaso com flor amarela no meio da mesa, um passo para trás para ver se tudo estava em ordem. Fez sinal de positivo para os colegas. Os dois em sorrisos perguntaram se ela queria acrescentar algo para o público sobre aquela apresentação. Paulinha pegou o microfone sossegadamente: Gostaram? O público suando, depois não de doze, mas de catorze minutos de silêncio, levantou-se em aplausos. A mãe era só lágrima e riso. Mais um passo, pensava ela.

Todos estavam falantes, uma pequena multidão integrada. O homem aproximou-se da mulher, e ela percebeu seus olhos mareados tal qual os dela. Vinte anos. O cabelo, antes tão parecido com o de Paulinha, estava grisalho. Com a voz embaraçada ele repetiu o que falara há pouco para a outra filha. Ela é capaz. Sim, ela sabia. Nossa filha é capaz, repetiu a mulher entre soluços.

Paulinha desceu do palco, abraçou a mãe, perguntou se gostou. Muito, minha filha, muito, beijando-a na testa. Depois voltou-se para o homem que, num gesto de conciliação, acariciou seu cabelo. Você está muito bonita, disse. Obrigada, sorriu. Olhe, estão servindo o lanche e tem bolo de chocolate! Puxou os dois pelos braços, e saiu cumprimentando os colegas. A filha mais velha vigiava a família, mãos em oração. Uma chance, mais uma.

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22 comentários sobre “Passo a passo

  1. Lindo, emocionante e verdadeiro, embora fictício!
    Ela tem o dom de envolver… 🙂
    Desejo ainda mais criatividade pra que você nos inspire mais e mais.
    Parabéns pelo feito.
    🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Chora não, prima! Um livro nesse tom vai lhe desidratar..rs… Venha sempre nos visitar e traga Felipe, será um prazer! Bjs,

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